O RCS evocou Bocage pelo 255º Aniversário do seu Nascimento

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage, de seu nome completo, foi o segundo de seis filhos do juíz José Luís Soares de Barbosa e de D. Mariana Joaquina Xavier L’Hedois Lustoff du Bocage.  
Nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765 e faleceu, com apenas 40 anos, em 1805, no dia 21 de Dezembro, em Lisboa.  

«Em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage e depois dele decaiu. Da sua geração, e das que a precederam, foi ele o máximo cinzelador da métrica. (…) Depois dele, Portugal teve talvez poetas mais fortes, de surto mais alto, de mais fecunda imaginação. Mas nenhum o excedeu nem o igualou no brilho da expressão.» 
Olavo Bilac (expoente do movimento parnasiano brasileiro)
Introdução adaptada de artigo do jornal O Sol, de 15 maio 2016

No passado dia 17 de setembro teve lugar nova reunião semanal do RCS. Na perspectiva de evocar o poeta setubalense Bocage por altura do seu 255º aniversário de nascimento, o Presidente do RCS, Alberto Vale Rêgo, integrou no Boletim Mensal de Setembro um momento para celebrar este ilustre cidadão, tendo convidado, previamente à reunião, os membros do clube a participarem activamente na mesma, apresentando alguns dos poemas do poeta, o que ocorreu com ampla participação, tendo motivado também grande interesse por parte de todos os que assistiram à reunião através de videoconferência.

O ponto alto foi sem dúvida a intervenção da Companheira Maria Helena Fragôso de Mattos, que apresentou um texto da sua autoria sobre o poeta sadino, mostrando alguns aspectos menos conhecidos da sua vida e obra literária.

Pelo interesse da referida apresentação, que aprofundou um pouco mais o conhecimento do poeta, passamos a apresentar a mesma, fazendo votos de que tal contribua para a motivação quer dos setubalenses como dos amantes de literatura, a aprofundarem a obra de Bocage.

“…EIS  BOCAGE… “       

M. Helena Fragôso de Mattos

“Para evocar a figura icónica nascida nesta cidade há 255 anos, recorro aqui  à quase-tertúlia em que se transformou uma reunião de Amigos em que a certa altura discutimos as visões de cada um sobre a personalidade de Bocage e as recriações da sua imagem física e fisionómica que se têm projectado no cidadão comum.

Relativamente a Bocage enquanto pessoa, é comum referir-se uma infância difícil, infelicidade nos amores, inadaptação social, conformação com o sofrimento, ideias eventualmente colhidas apenas a partir do conhecimento de alguns dos seus sonetos mais famosos como o seu auto-retrato,  outros sobre alegados amores suspirados e infelizes, ou ainda aqueles em que o Poeta faz como que um balanço da sua vida e a sua despedida. Enfim um registo com uma certa aura de tristeza, que foi também transposto para algumas representações plásticas, o que não admira, pois que o único retrato de Bocage em vida, que tem servido de referência, foi feito numa fase em que já se encontrava muito doente. (retrato de Henrique José da Silva)

Por outro lado, e em contraste, associa-se naturalmente também ao Poeta, a sua vida boémia e libertina e cola-se-lhe frequentemente o chiste e a anedota grosseira e mesmo obscena que a tradição popular lhe atribui, confundindo-os com o espírito arguto e a ironia mordaz e oportuna, mencionados em testemunhos fiáveis.

Mas Bocage não é isso, ou não é apenas isso: Bocage tem de ser olhado e recriado como um Homem livre, crítico, desafiador, assertivo e apaixonado…, características que se revelam, bem marcadas, no tratamento dos dois grandes temas que atravessam toda a sua obra – a Liberdade e o Amor .

Com um conceito de Liberdade colhido provavelmente nas ideias que  preconizaram a Revolução Francesa as quais por força do movimento dos portos de Lisboa e de Setúbal iam chegando a Portugal, com os seus excessos e arrebatamentos adoptados pelo seu espírito impulsivo e de comprovada inconformidade e intransigência, este Homem surge-nos como alguém não integrado no sistema, que denuncia as tensões, as hipocrisias e as injustiças de uma sociedade sujeita, nas ideias e na prática de vida, ao domínio limitador, e mesmo repressivo, do Intendente Pina Manique.

(Não podemos esquecer que estamos em plena Contra-Reforma e que se tenta preservar o chamado Ancien Régime  e portanto impedir a disseminação dos ideais da liberdade e direitos dos cidadãos) 

Os seus bem conhecidos sonetos onde fala da “Liberdade querida e suspirada…” ou onde pergunta “Liberdade onde estás, porque demoras?” são bem a expressão da sua ânsia pela sua liberdade pessoal, extrapolada para a ânsia por uma liberdade social.

Bocage é um Homem culto: estudou humanidades, conheceu a cultura greco-romana e aprendeu francês, latim e grego, o que, aliás em alguns momentos da sua vida lhe valeu a sobrevivência graças às traduções, que lhe encomendavam. Adquiriu também importantes conhecimentos científicos e técnicos na Academia Real de Marinha.

Mas mais do que esta cultura, é o reconhecimento do seu mérito literário e da sua genialidade que lhe faculta o contacto com poetas como a Marquesa de Alorna ou a Viscondessa de Balsemão e lhe abre as portas dos salões aristocráticos onde se realizavam assembleias de poesia e música, aos quais, sem esse reconhecimento, não teria tido estatuto social para aceder. Aí brilham o seu talento e a sua versatilidade, quer pela sensibilidade, beleza e perfeição dos seus sonetos, quer pelo sarcasmo cáustico dos seus escritos ou improvisos de intervenção social!

 Efectivamente, é à luz da sua formação e não apenas do seu empolgamento juvenil, que Bocage, em epigramas e sátiras implacáveis e demolidoras e numa linguagem por vezes crua, analisa e denuncia situações irregulares e injustas, bem como aqueles responsáveis pelas mesmas, atingindo personalidades poderosas, que não lho perdoam. Bocage é um transgressor consciente, intencional e paga duramente por isso e pela coragem e constância das posições que toma e que mantém.

Homem da Liberdade, Bocage é também um Homem do Amor!

No seu historial, nos seus amores poetizados, muito haverá de real, e muito haverá também, de fictício, de literário! Mas, aparentemente, foi um Homem que muito amou e muito foi amado…

A sua fama tradicional de galante e espirituoso parece projectar-lhe um forte carisma entre as mulheres do seu tempo, de diversos estratos sociais, algumas identificadas outras apenas presumidas… E se alguns dos seus poemas contam sobre amores infelizes tão ao gosto já de um pré-romantismo, outros falam de momentos de êxtase e felicidade, ou revelam mesmo o prazer erótico dos amantes apaixonados, num registo poético que naturalmente tem os seus seguidores até aos nossos dias!

Bocage, “…devoto incensador de mil deidades, digo, de moças mil…” Pela minha parte, não sendo infelizmente nem deidade nem já moça, continuo rendida a este homem/poeta, frontal e assertivo, anticlerical mas profundamente religioso, justo e sensível… Este Homem, sempre tão presente para nós Setubalenses, e não só, e que se descreve como

 “Magro, de olhos azuis…”,  como o azul do seu “pátrio Sado”!

M. Helena Fragôso de Mattos

(Adaptação de uma intervenção nos Paços do Concelho em 15 de Setembro de 2015)